FRANZ KAFKA: NÃO É PERMITIDA A ENTRADA NA PORTA DA LEI

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“Diante da lei está um porteiro. Um homem chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode lhe permitir a entrada. O homem reflete e depois pergunta se então pode entrar mais tarde.

— É possível — diz o porteiro. —Mas agora não. (…) Veja bem, eu sou poderoso.

(…) O homem não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele. (…) O porteiro lhe dá um banquinho e o deixa ficar sentar ao lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios e sempre lhe repete que não pode deixa-lo entrar. (…) Durante todos esses anos o homem observa o porteiro sem interrupção. Já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, fala: — Todos aspiram á lei. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?

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Responde o porteiro: — Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e a fecho”. Conto Diante da Lei, de Franz Kafka, foi escrito em 1916.

Considerado um dos principais escritores da literatura moderna, Franz Kafka (1883-1924), nasceu em Praga, cidade do império austro-húngaro. Forma-se em Direito, trabalha em companhias de seguros, dedicando-se também à literatura. Seus livros mais conhecidos são O processo, cujo protagonista é preso sem saber por quê, e Metamorfose, em que um homem se transforma em barata para mostrar sua insignificância diante do poder de muitas instituições.

Fotos: internet

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CARLOS HEITOR CONY: “O POETA FABRICA UM TERRITÓRIO MÁGICO”

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“O poeta pode ser um fingidor, como queria Fernando Pessoa, um dos maiores gênios da língua portuguesa. Mas, além de fingidor, ele é uma testemunha da história e da condição humana, um criador que fabrica não apenas a própria dor ou alegria, mas um território mágico feito de palavras e emoções”. Carlos Heitor Cony.

“Numa das seis prisões durante o regime militar, um coronel me perguntou por que eu escrevia tanta besteira no jornal em que então trabalhava. Dei razão a ele. Até hoje, acho que não fiz outra coisa”. Carlos Heitor Cony.

 O jornalista e escritor carioca Carlos Heitor Cony (1926-2018) não articulava qualquer palavra até os quatro anos de idade, quando pronunciou as primeiras palavras. Somente após uma cirurgia, quando tinha 15 anos, Cony passou a falar normalmente. Trabalhou nos principais jornais do país e já foi ganhador do Prêmio Jabuti,o mais tradicional prêmio literário do Brasil, criado em 1959.

Literatura, poesia e democracia são ótimas pra vista.

Literatura é bom pra vista publica uma das tantas crônicas de Cony:

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O Garoto das Meias Vermelhas

Ele era um garoto triste. Procurava estudar muito.
Na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa.
Todos os outros meninos zombavam dele, por causa das suas meias vermelhas.
Um dia, o cercaram e lhe perguntaram porque ele só usava meias vermelhas.
Ele falou, com simplicidade:
“no ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo”.
Colocou em mim essas meias vermelhas.
Eu reclamei. Comecei a chorar.
Disse que todo mundo iria rir de mim, por causa das meias vermelhas.
Mas ela disse que tinha um motivo muito forte para me colocar as meias vermelhas.
Disse que se eu me perdesse, bastaria ela olhar para o chão e quando visse um menino
de meias vermelhas, saberia que o filho era dela.”

“Ora”, disseram os garotos. “mas você não está num circo.
Por que não tira essas meias vermelhas e as joga fora?”
O menino das meias vermelhas olhou para os próprios pés,
talvez para disfarçar o olhar lacrimoso e explicou:
“é que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora”.
Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas.
“Quando ela passar por mim, em qualquer lugar em que eu esteja,
ela vai me encontrar e me levará com ela.”

https://www.pensador.com/cronicas_de_carlos_heitor_cony/

Fotos: internet

MEDO, ANGÚSTIA SÃO SÓ DO EXPRESSIONISMO?

O grito

Avanços técnicos científicos do final do século XIX  e começo do XX, consumismo exacerbado e uma certa melancolia decorrentes de muitos que consideram que estávamos nos tornando dependentes das máquinas levaram às chamadas vanguardas européias: movimentos artísticos  que se consideravam modernos, inovadores e diziam anunciar o mundo em transformação.

O expressionismo, entre 1905 e 1912, foi um deles e traduz a dita angústia moderna do homem moderno. Retrata a dor, a a loucura, o medo, a solidão deste homem, que viverá, em  breve, a hecatombe da Primeira Guerra Mundial.

MUNCH

Edvard Munch

Um dos expoentes do expressionismo foi o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1844), que considerava a arte uma espécie de arma para lutar contra a sociedade. Morte, dor e doença sempre o rondaram: a mãe morreu quando ele tinha 5 anos, a irmã mais velha faleceu aos 15 anos, a mais nova sofria de doença mental e uma outra irmã também morreu meses depois de casar. O próprio pintor vivia doente. A pintura O Grito, datada de 1893,  cópia publicada em Literatura é bom pra vista, é considerada sua obra máxima e uma das mais importantes do Expressionismo. Qualquer relação com estes tempos interessantes pelos quais estamos passando não é bem mera coincidência.É só olhar o quadro pra entender o espírito da coisa todinho. Arte é bom pra vista.

PATATIVA DO ASSARÉ, O CORDELISTA

 

Literatura é bom pra vista segue homenageando o cordel, que se tornou patrimônio cultural brasileiro há duas semanas e aproveita para falar de um dos melhores e maiores cordelistas brasileiros: Patativa do Assaré (1909-2002). Patativa chamava-se Antônio Gonçalves da Silva, nasceu em morreu em Assaré, região do Ceará. Poeta, compositor, cantor e improvisador,  aos seis anos ficou cego de um olho, em decorrência do sarampo. Com ele, eram cinco irmãos, que ficaram órfãos de pai ainda crianças. Patativa tinha 8 anos e teve de trabalhar no cultivo da terra com o irmão mais velho, para poder sustentar a família. Conseguiu ir à escola aos 12 anos, apaixonou-se pela poesia e passou a fazer versos e repentes. O apelido Patativa surgiu porque suas poesias eram comparadas com a beleza do canto desta ave nativa da região.

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Trecho de uma das belezas de Patativa:

“(…) Cante lá… que eu canto cá
Repare que a minha vida
É deferente da sua
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua
Já eu sou bem deferente
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão
Não tenho estudo nem arte
A minha rima faz parte
Das obras da criação…
Mas porém, eu não envejo
O grande tesôro seu
Os livro do seu colejo
Onde você aprendeu
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta
Não precisa professô
Basta vê no mês de maio
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô(…)
Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré (1909 – 2002)

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Fotos internet

CORDEL SE TORNA PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO

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A literatura de cordel foi reconhecida e tombada como  patrimônio cultural do Brasil pelo Iphan. A decisão está em vigor desde o dia 19 de outubro e o cordel ganha a proteção da lei 3.551, de 2000, que estipula políticas de proteção  e estímulo a este novo bem imaterial brasileiro. Há 60 cordelistas no país, 20 deles no Rio e há também uma academia de cordel. Cordel são folhetos contendo poemas populares, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome.

Cordel

Os poemas de cordel são escritos em forma de rima e alguns são ilustrados. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

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Façam uma visita virtual à Academia Brasileira de Literatura de Cordel:  www.ablc.com.br

 

ELIZA WILHEM É DENTISTA E ESCRITORA

Elisa

LITERATURA É BOM PRA VISTA publica depoimentos de diferentes pessoas, com diferentes atuações, sobre livros que leram, livros que desejem indicar, livros que possam ter mudado suas vidas e por que acham que literatura é bom pra tudo. O objetivo é trocar culturas, impressões e desejos, a fim de formarmos uma grande, forte e solidária rede literário-cultural.

Dentista, formada em jornalismo, Eliza Wilhem também estudou piano, fez  aulas de canto, com iniciação em canto lírico. Como se não bastasse é também escritora. Seu livro No fole da noite, Ciranda é prosa poética pura porque música e poesia sempre ocuparam lugar de destaque em sua vida.

“Escrevi o livro em 2016, que foi ilustrado pela artista plástica Silvana Soriano. Artista com antevisão dos traços, que ilustra, em cada texto, o que a palavra anuncia”, explica.

Eliza ensina à Literatura é bom pra vista que Mar Morto, de Jorge Amado, levou-a olhar o mar com mais poesia. Clarice Lispector lhe concedeu algum alento às confusões da alma. Ela mesma explica, de maneira muito densa e rigorosamente sensível:

“Mar Morto é a melhor lembrança da adolescência, quando Jorge Amado ficou muito perto das referências mais genuínas do mar, o amargo da solidão e a fluente fantasia. Clarice chegou confortável porque abrevia as confusões da alma e a plasticidade é um movimento arrebatador e intrigante. Em Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector acertou meus pensamentos. Poesia ensaio desde os 13 anos [ela tem 52]. As duas obras citadas geriram a coragem. Nos meus textos, com o tempo, a prosa poética ganhou o lugar da poesia pura, da divisão de versos, numa velocidade de intervenções de imagens que remodelam a sintaxe e prometem a visão através”.

E a escritora ainda nos brinda com mais indicações de leitura e autores:  “Também recomendo Mauro Sta. Cecília, Jacinto Fabio Corrêa, Mario Quintana, Florbella Espanca, Manoel de Barros”.

Ah, e Literatura é bom pra vista publica trechos do livro de Eliza. Pérolas que rolam e embelezam nosso caminho e nossa imaginação.

“Saiu pela porta a desabotoar os vínculos com a pátria mãe, nos pormenores do sonho, outros continentes dilatados pelo mapa. Surpresas ao cruzar com códigos caseiros em outros comícios. Era o momento de abrir a mala e rever cartas empilhadas na seda do forro escondido. Cheiro de passado a limpo. Viu o frio esguio subir pelo corpo, sempre estrangeiro, a trocar frutas por euros, desoladas no gosto insosso das horas, a viagem até o paladar. Ouviu cantigas de roda na tradição oral que não trái hífens, casados e divorciados em palavras”.

“Cartas na mesa

A mulher medita no choro

As pegadas retratos

Entendidas no pescoço

Engole a química displicente Glupt rum

E lê o amor Descarte em voga Nas bolhas de sabão”

 

O MUSEU NACIONAL É UMA FÊNIX

regina

Literatura é bom pra vista é fã de carteirinha de museu e, como todos, enlutou-se com a queima de um deles. Mas há esperança. Há, sim. Literatura é bom pra vista pôde testemunhar que o nosso Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, está vivo.  Vive, respirando sob aparelhos na resiliência de seus professores, funcionários e alunos.  Eles montam eventos na parte externa do palácio, que ainda cheira a queimado. São exposições do que restou, alunos se apresentam em pequenos espetáculos que atraem crianças e adultos. O clima entre eles é de alegria. Explicam sobre cada peça exposta, sentam-se com as crianças que desenham o que vêem. Foi assim durante a Primavera dos Museus, terminada na semana que passou. O evento volta no dia 8 de outubro.

Um dos exemplos mais belos e inspiradores desta resistência foi o da professora de História das Ciências do Museu Regina Dantas. A historiadora vestiu-se da imperatriz Leopoldina para contar a quem se propusesse a ouvir a história do Museu, do palácio onde viveu a família real e da própria imperatriz.

— Estou muito feliz em estar aqui e poder fazer isso: homenagear o Museu, a  História do Brasil, além da história de uma mulher das mais importantes do século XIX, a princesa Leopoldina porque ela estudou botânica, mineralogia, astronomia. Ela foi nossa regente.  O museu está vivo como residência dela, como espaço de Ciências e de História,  Considero que nossa tarefa, agora, é essa:  mostrar teses, dissertações sobre a História do Museu Nacional. Das cinzas à fênix, fênix que renasce. Temos de nos reinventar porque a História não pode parar aqui.

Este Blog é pra quem gosta de ler, escrever, refletir e conversar sobre jornalismo, literatura e demais culturas.