ELZA MELLO: “LIVROS DEIXAM NOSSAS ALMAS DESENHADAS”

ELZA foto filharada

Lucas, Mariana, Elza e André Mateus

Há algum tempo Literatura é bom pra vista entrevistou Elza Mello. Professora de Língua Portuguesa e Literatura da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro, mãe de Mariana, André Mateus e Lucas, é também advogada e uma mulher inteligente, brilhante. Ah, e uma mãezona: papel que desempenha com maestria.

Ok, dia da mãe é todo dia. Mas Literatura é bom pra vista escolheu falar dela — Elza — que tem uma história de vida inspiradora, forte e corajosa e com percalços consideráveis para contar e, com ela, homenagear todas as mães: hoje e sempre.

A professora por vocação Elza Mello nasceu de sete meses. Sua mãe levou um susto, com uma estripulia do filho mais velho, e o parto adiantou.  Foi na Casa da Mãe Pobre, hospital filantrópico, situado no Rocha, subúrbio do Rio de Janeiro. A recém-nascida sobreviveu. Na adolescência, sofreu um acidente de carro. Sobreviveu. Foi proibida pelo médico de engravidar outras vezes, por conta da hipertensão. Mas Mariana e Lucas vieram. Sobreviveram e a mãe deles também. Há cerca de cinco anos teve um AVC. Sobreviveu. Ficou paralisada de um lado do corpo. Não andava. Ficou na cadeira de rodas. Conseguiu voltar a andar, trabalhar.  Há pouco tempo perdeu dois grandes amores: a mãe, sua maior incentivadora para estudar e não desistir, e o marido, com ela há mais de 30 anos. A dor da saudade ainda está lá. Mas ela não desiste. Não desiste. Não desiste. Insiste. Aprendeu com a mãe. Elza Mello pode até cair, vergar. Pode chorar copiosa e tristemente. Mas não desiste fácil. Não mesmo. Insiste. Persevera e segue em frente com sua vocação, seu amor pelos filhos, pela família, pela literatura e os livros.

Literatura é bom pra vista se sente honrada de poder trazer a seus leitores a história desta mulher. Abram-se, então, aspas para Elza Mello contar sua história e nos fortalecer, servindo-nos de exemplo, inspiração e alento. Todo dia é dia de mãe em Literatura é bom pra vista. Hoje, inclusive.

Sobre o nascimento difícil: “Nasci de 7 meses em uma época que poucas crianças sobreviviam tão pequeninas. Meu nome é uma homenagem à médica obstetra que ajudou meu nascimento. Foi um parto difícil. Nasci do susto de minha mãe, com uma travessura de meu irmão Ivantui. Ela entrou em trabalho de parto e nasci no Rio de Janeiro, na Casa da Mãe Pobre”.

Um caderno de muitas perguntas:“Desde muito cedo aprendi que teria que buscar o meu espaço no mundo e, como sempre gostei de ler e escrever, tinha um caderno para escrever questões do tipo: O que é pecado? Você acredita em Deus? Sexo é bom? A mulher deve ser submissa ao homem? E muitas outras”.

De uma escolinha pra um escolaço e duas faculdades depois: “Fui aluna do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, então Escola Normal, desde à 5 ª série. Minha mãe conseguiu me matricular nesta escola tão conceituada. Mas morri de medo de sair de minha escolinha para enfrentar aquele gigante famoso (era assim minha imagem do Instituto de Educação).  Pensei até mesmo em desistir, mas minha mãe não permitiu: ela sabia do meu sonho de ser uma professora. Ela insistiu, insistiu e eu a agradeço por tamanha insistência. Depois do Normal,  fiz Letras (Português-Latim), na UFRJ. Em seguida, fui cursar Direito, na UFF”.

No curso da Uerj, interrompido: era a gravidez da Mariana, era a hipertensão. Era, depois, o Lucas, nascido aos seis meses de gestação. E, antes, ainda no Curso Normal, o acidente de carro: “Iniciei, mas não terminei o Curso de Especialização em Educação na UERJ, devido a minha segunda gravidez: no caso, a de Mariana. Aprendi que não somos donos de nossa vida. Ela vai se desenhando sem nos perguntar muito quais os nossos reais desejos. Estava no Normal, quando sofri um acidente de carro que me fez repensar alguns conceitos e certezas. Tempos depois, grávida, tornei-me hipertensa. E mesmo proibida de engravidar novamente, tive outra gestação. Era o Lucas, meu terceiro filho, que brigou muito para viver: nasceu de cinco para seis meses, nasceu arrancado de meu ventre para que pudéssemos tentar salvá-lo; ficou quatro meses e uma semana internado na UTI neonatal do Hospital Universitário Pedro Ernesto, da UERJ. Tive rejeição aos pontos, minha barriga abriu. Mas precisei ser forte porque o hospital não dispunha de banco de leite (suspenso devido à morte de muitos prematuros, ocasionada por uma infecção hospitalar generalizada). O que fez a equipe hospitalar determinar que eu desse todas as mamadas por sonda porque Lucas ainda não mamava no peito. Lucas, meu terceiro filho, é autista”

Professora de vocação, premiada e homenageada: “Sou professora de vocação. Amo o que faço. Estudei inglês no IBEU, fiz Aliança Francesa e Curso de Contação de Histórias. Já ganhei prêmio para participar no Congresso Internacional de Educação e Leitura, representando a 3ª Coordenadoria Regional de Educação da Rede Municipal de Ensino do Rio. Fui homenageada pela Sala de Leitura Pólo George Sumner e convidada para participar de uma mesa de debate sobre o uso de novas mídias pela Secretaria Municipal de Educação, por intermédio da Empresa Municipal de Multimeios, a MultiRio”.

O AVC, sentir o livro, acariciar o livro, saber que é parte de mim: “Minha rotina foi alterada profissionalmente depois de sofrer um AVC em 2014. Hoje compreendo que alterou muito minha rotina cultural à época: gosto de ler e preciso sentir o livro, acariciá-lo, sabê-lo meu, parte de mim. Não conseguia me locomover completamente. Gosto de ir às livrarias ainda existentes com minha filha Mari. Gosto de ouvir as entrevistas de Ariano Suassuna e de Mario Sergio Cortella. Gosto de teatro, ouvir música com meus filhos, conversar com eles sobre diversos assuntos, testemunhar o crescimento deles, ouvindo suas opiniões, seus medos, suas ansiedades”.

Livros deixam nossas almas desenhadas: “Vários foram os livros que me marcaram. Acredito, inclusive, que todos deixam nossa alma desenhada e que nunca saímos ilesos a uma boa leitura. Li muitos livros quando criança e adolescente porque sou de uma época em que os professores mandavam ler para cobrarem em prova (horrível, porém, real). E nós nos perdíamos nas diversas leituras que não entendíamos, ou não tínhamos quem nos fizessem enxergar a beleza de suas palavras. Um dos meus primeiros livros foi A Chave do Tamanho, de Monteiro Lobato. Odiei o livro e, durante muito tempo, acreditei que ficaria longe da Literatura. Mas fiz as pazes com a Literatura quando li O Pequeno Príncipe, e, ainda criança me encantei por suas imagens. Aprendi a ler com minha professora Leda Giudicce, de Língua Portuguesa”.

Sem autoajuda: “Adoro ler. Leio revistas, livros. Só não gosto de livros de autoajuda. Não tenho autores preferidos, mas alguns autores me fizeram repensar a vida: Cecília Meirelles, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Leonardo Boff, Jorge Amado, Marcelo Gleiser, Marta Medeiros, Mário Quintana, Bartolomeu Campos de Queiroz e também Lázaro Ramos”.

Indicando livros: Indicação é sempre muito complicado, mas vamos lá: de Leonardo Boff, A Águia e a Galinha; de Mário Quintana, Antologia Poética; de Cristóvão Tezza, Um operário em férias, de Bartolomeu Campos de Queiroz, Elefante, e de Cecília Meirelles, As Palavras Voam.

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